O maior e mais permanente mistério tem a ver com a morte. Como um homem com uma fortuna estimada em US$ 30 bilhões, paranoico por segurança, à frente de um exército treinado formado por 25 guardas particulares e morando em um dos locais mais seguros do mundo (um policial a cada 100 habitantes) conseguiu ter um fim ao mesmo tempo tão inexplicável e prosaico?
Assassinato em Mônaco, da Netflix, tenta desvendar o mistério, ora separando, ora juntando as três partes dessa intrincada história até hoje não suficientemente esclarecida: a morte do banqueiro libanês-brasileiro Edmond Safra e de sua enfermeira Vivian Torrente no luxuoso apartamento de 900 metros quadrados do edifício Belle Époque, em Mônaco.
Os fatos: na madrugada de 3 dezembro de 1999, dentro de um apartamento de segurança-máxima, Safra, aos 67 anos, morreu asfixiado pela fumaça de um incêndio. No local ultraprotegido, ele – que sofria do Mal de Parkinson – vivia ao lado da mulher e de uma equipe de enfermeiros e cuidadores responsáveis por seu bem-estar.
A conclusão oferecida pela justiça de Mônaco é a de que Edmond morreu vítima de um incêndio criminoso, aparentemente causado de forma acidental por aquele apontado pelas investigações como o responsável: Ted Maher. O enfermeiro, um norte-americano, ex-Boinas Verdes e com um salário de mais de US$ 10 mil mensais, chegou, num primeiro momento, a confessar ter começado o incêndio ateando fogo em papéis colocados em uma lata de lixo.
Sua intenção era a de ele mesmo debelar o fogo, realizar um resgate heróico e, assim, receber uma polpuda recompensa dos Safra.
Ou seja, o fato era singelo, facilmente contornável até, apenas ganhando a dimensão que ganhou pelo fato de Edmond ter se trancado em um quarto de pânico e se recusado a abrir a porta inclusive para os bombeiros. Uma falsa denúncia de que o apartamento teria sido invadido por homens ligados à máfia russa aumentou ainda mais o mistério.
A esses fatos e suspeitas se soma um “elenco” maravilhoso, que vai de uma funcionária arrivista que disputava com Ted Maher a primazia da simpatia do patrão a um misterioso Mister X, que concede seu depoimento à meia-luz. Há ainda o advogado de Maher, aparentemente bem-intencionado e confiante da inocência de seu cliente, e – melhor ainda – o ex-companheiro de cela de Maher, um italiano vigarista e ótimo contador de histórias.
Mas Ted Maher, entrevistado na maior parte do tempo do documentário, discorda da versão oficial. Julga-se o homem errado no lugar errado e se considera uma vítima. Foi punido mesmo ao tentar salvar Edmond, enfrentar os dois invasores da máfia russa e, apesar de esfaqueado pelos adversários, conseguiu chegar ao elevador e alertar a segurança – porém, não a tempo de evitar a tragédia maior.
É o mesmo Ted Maher o responsável por colocar os russos na trama, inclusive fazendo ligações entre os oligarcas de Moscou e os membros da Família Real de Mônaco.
A máfia estaria interessada em se vingar de Edmond, e por isso teria realizado o plano. A teoria conspiratória pouco se sustenta além da versão defendida pelo enfermeiro. É o elo mais frágil dessa corrente de acontecimentos.
Para os últimos 15 minutos do documentário, o diretor ainda reserva uma reviravolta, impossível de ser contada sem spoilers. É preciso assistir ao filme para entender, embora pouco tenha a ver com o crime original.
Com essas duas pontas – Maher e a máfia russa – definidas, o documentário teria ganho mais ainda em ação e mistério se tivesse se debruçado sobre a figura da enigmática viúva Lily Safra – ou melhor, Lily Watkins Cohen Monteverde Bendahan Safra.
O escritor e biógrafo Fernando Morais a classifica como uma personagem fascinante e garante que a história dela daria livro, filme, documentário, minissérie.
O jornalista Paulo Gasparotto, o principal colunista social do Rio Grande do Sul – que a conheceu pessoalmente e sobre ela escreveu um curto perfil –, disse que Lily soube usufruir de suas escolhas requintadas. O fato é que a encantadora, sedutora, enfim, ravissante, vida de Lily teve todos os elementos que compõem uma história fabulosa: paixões, tragédias, crimes, festas, sorte, azar e dinheiro – muito dinheiro.
Filha de um inglês do ramo ferroviário que veio trabalhar no Brasil e se instalou em Canoas no início dos anos 30, Lily logo afastou-se de suas raízes e foi brilhar em outros cenários.
Ajudaram-na uma capacidade inimitável de atrair pretendentes ricos. Seu primeiro marido, ainda na juventude, foi Mario Cohen, um industrial argentino ligado ao ramo têxtil. Com ele, Lily teve três filhos: Claudio, Adriana e Eduardo. O casamento durou menos de uma década, mas serviu para inserir Lily em rodas maiores.
Já no começo dos anos 60, ela viria a se casar com Freddy Monteverde. Filho de um romeno refugiado de guerra, Freddy instalou-se no Rio e criou o Ponto Frio, importando dos Estados Unidos para a classe média carioca as geladeiras da marca Cold Spot. Seu império gelado espalhou-se rapidamente e, além do sucesso nos negócios, Freddy circulava bem na sociedade, sendo amigo de nomes como Salvador Dali e Orson Welles.
O casamento que parecia perfeito terminaria em tragédia: Freddy foi encontrado morto em casa. A causa: uma profunda depressão que o levara a um inusitado suicídio em que o suicida morre com dois tiros.
Lily herdou o império com Carlos, o filho adotivo do casal. Depois de vencido o luto, retomou a vida social de maneira ainda mais intensa.
Interessada em leilões, conheceu Edmond durante um evento em Paris. Os dois disputavam a mesma peça, mas, mesmo perdendo, Lily saiu ganhando. Logo depois, ele se aproximaria dela e lhe presentearia com o objeto da disputa. Daí para o casamento foi um passo.
Lily, explica o documentário, nunca foi bem aceita pelos irmãos de Edmond. Eles também não são entrevistados, mas, segundo o depoimento de uma amiga, os dois sempre desconfiaram de todas as intenções da brasileira, inclusive de seu envolvimento na morte do banqueiro.
Ainda assim, Lily e Edmond viveram juntos 23 anos, ao fim dos quais mais uma vez sobreveio a tragédia. Citada por todos os envolvidos, Lily só aparece em Assassinato em Mônaco em imagens de arquivo. Não há registro de qualquer depoimento seu sobre o crime. O filme tampouco se detém em explicar como ela – residente no apartamento (em quarto separado ao de Safra) – conseguiu escapar do incêndio.
Esse e tantos outros mistérios Lily levou consigo ao morrer em 2022, aos 87 anos.
The post Edmond Safra: o documentário do enigma appeared first on Brazil Journal.

