“Nepotismo do bem” é uma expressão criada pelo jornalista e diretor musical Nelson Motta – basicamente se referindo ao fato de alguns herdeiros musicais terem assimilado o talento dos pais e estarem prontos para qualquer comparação que lhes possa soar como desfavoráveis.
O jornalista usou o termo para saudar Maria Rita e Bebel Gilberto, herdeiras de Elis Regina e João Gilberto.
“Quem entende de música garante que Maria Rita e Bebel, de estilos muito diferentes, são intérpretes extraordinárias, tão boas quanto as nossas melhores,” Motta escreveu na Folha de S. Paulo em 2005. “Ser filho de João e de Elis e cantar profissionalmente não é propriamente uma moleza, é um desafio pesado, sob pressão, tensão e comparações quase insuportáveis. E as duas meninas chegaram lá sem absolutamente nenhuma ajuda dos pais.”
O epíteto “nepotismo do bem” também cai bem para dois descendentes de astros de alta patente que lançaram discos em 2025: Chico Chico, rebento de Cássia Eller e do baixista Tavinho Fialho, morto pouco antes do seu nascimento, e Zeca Veloso, o primogênito de Caetano Veloso e Paula Lavigne.
Let it Burn/Deixa Arder é o terceiro trabalho de Chico Chico, que herdou da mãe não apenas a expressão insolente como também o vozeirão ideal para cantar blues e folk. “Eu amo. Sempre escutei muito folk, é uma coisa que sempre fez muito minha cabeça,” ele disse ao Brazil Journal (a exemplo da mãe, Chico também é de poucas palavras).
Em meio a canções da própria lavra, o disco traz uma releitura de Four and Twenty, do supergrupo americano Crosby, Stills, Nash & Young, e Girl from North Country, de Bob Dylan. Chico alterna esse carinho pelo folk americano com a pesquisa do folk nordestino – presente em outra recriação, Vila do Sossego, de Zé Ramalho, e na parceria com a cantora e violonista Josyara em Parabelo da Existência.
“Sou fã pra caramba da Josyara, acho uma coisa incrível. Tenho sorte de ser amigo dela, de conhecer. Então, o que eu puder fazer junto com ela, eu vou fazer,” empolga-se.
Uma das principais qualidades de Let it Burn está no fato de ser um trabalho mais focado. Ao contrário de discos anteriores – Estopim, de 2024, e Pomares, de 2021– onde as várias referências, ainda que mostrassem sua versatilidade, acabaram soando dispersas, o trabalho atual traz pelo menos dois gêneros musicais predominantes: o folk e o blues, que dá as caras em Tempo de Louças, que remete ao blues/soul raiz do sul dos Estados Unidos nas ótimas Two Mother’s Blues e Zero Jogo, mais puxadas para o lamento acústico do início do século passado.
Vez ou outra, Chico se arrisca em outras searas, como a milonga e o tango (Lugarzinho, Canção de Ninar) ou o gospel (Acaso Inevitável).
Zeca Veloso teve a sua chegada anunciada em Boas Vindas, canção do épico Circuladô, que Caetano lançou em 1992. Décadas depois, o pai se encarregou também de alardear os dotes musicais do filho no show/disco Ofertório (2017), no qual ele se apresentava ao lado de Zeca e Tom (do casamento com Paula Lavigne) e Moreno Veloso, filho da união de Caetano com Dedé Gadelha.
Ele era responsável por um dos melhores momentos do show, a balada Todo Homem, cantada ao piano e com vocal em falsete. O momento rendeu a expectativa de um trabalho solo, concretizado somente oito anos depois da aparição de Zeca.
Boas Novas, o tal disco (a canção que dá título ao disco, vejam só, foi criada em homenagem ao filho de Tom, irmão de Zeca), tem nada menos que doze produtores e, dizem, foi feito e refeito diversas vezes até ser considerado pronto.
“A gente fez o necessário para o disco ficar do jeito que gostaríamos,” Zeca disse ao Brazil Journal. Algumas das composições foram criadas ainda durante a pandemia. “Foi um tempo que eu compus bastante. Caso de Boas Novas, que fiz para o meu irmão, o Tom. Ele me mandou a demo com a melodia e a harmonia e fiz a letra no ano de 2020.”
Antes de se lançar como artista solo, Zeca aprendeu violão com Cézar Mendes (uma referência do violão brasileiro) e chegou a atuar como DJ de house music.
Embora os tempos dos beats tenham ficado para trás, há em Boas Novas diversos convites à dança – no caso, canções que emulam a sonoridade da Black Rio, movimento de soul/samba/funk surgido na ex-capital da República nos anos 1970.
“Sou próximo dessas ondas por causa dos tempos em que eu discotecava. Mas tem elementos dançantes no disco, principalmente por causa do baixo de Alberto Continentino e dos arranjos de sopro do Marlon Sette (duas autoridades do balanço atual da música brasileira). E isso tem a ver com histórico de referências, das coisas que fiz com música, das coisas que eu ouvi e tal… Mas como essas músicas ficaram no disco, tem mais a ver com os produtores e arranjadores que comigo, embora obviamente a escolha deles tem a ver com esses meus interesses também,” disse Zeca.
Boas Novas tem uma qualidade que os produtores americanos e músicos definiram como “well crafted” (bem elaborado). Há um quê do pop sofisticado dos anos 70, principalmente o de bandas como Steely Dan e cantoras e compositoras como Carole King.
“Eu acho que foi o Antônio Ferraz que trouxe o som do Steely Dan,” disse Zeca, referindo-se a um dos produtores do álbum. “Escutei Peg, uma das canções do Steely Dan e fiquei muito impressionado com aquilo tudo.”
A sofisticação de Zeca se manifesta nos belos arranjos de cordas na faixa-título e em Carolina (detalhe: cantada em inglês), nos arranjos vocais que remetem ao grupo afro/soul Os Tincoãs em Mal Menor e nos grooves – que eles preferem chamar de boogie – que surgem em Máquina do Rio e Desenho de Animação e na combinação de ijexá e soul em Salvador, a faixa de abertura.
A voz em falsete, adianta o cantor e compositor, foi inspirada pelo período em que morou com o pai e este se entregava a audições maciças do grupo inglês Radiohead – cujo vocalista, Thom Yorke, também é um especialista na arte do falsete. Diversificado, palatável e sofisticado, Boas Novas se firma como um dos grandes lançamentos de 2025.
Chico Chico e Zeca Veloso são provas de que o tal “nepotismo do bem”… até que dá certo.
The post Chico Chico, Zeca Veloso e o “nepotismo do bem” appeared first on Brazil Journal.

