Propulsores do Challenger apresentavam risco conhecido em temperaturas baixas, mas decisão de lançar prevaleceu sobre alertas técnicos — Foto: Nasa/Getty Images
Quarenta anos depois da explosão do ônibus espacial Challenger, que matou sete pessoas em 73 segundos de voo, engenheiros que tentaram impedir o lançamento ainda carregam uma pergunta: por que suas recomendações técnicas foram desconsideradas? A resposta, segundo reportagem do jornal The Washington Post com entrevistas inéditas dos envolvidos, revela padrões de decisão sob pressão que permanecem atuais.
Brian Russell, que na época tinha 31 anos e trabalhava na Morton Thiokol, fabricante dos propulsores do Challenger, passou 2024 visitando centros da NASA. Seu objetivo: garantir que as equipes da missão Artemis II, prevista para 2026, compreendam o que deu errado naquela manhã gelada de 28 de janeiro de 1986.
"O objetivo era tornar a equipe melhor e aprender com nossa experiência", explicou Russell ao The Washington Post. Décadas depois, ele identifica na tragédia lições sobre liderança, gestão de riscos e as consequências de ignorar especialistas técnicos. E alerta para que a Nasa encare os erros para evitar novas tragédias no futuro.
Os propulsores sólidos do Challenger eram construídos em seções na fábrica em Utah e remontados na Flórida. As junções entre as partes eram seladas por anéis de borracha chamados O-rings, com apenas um quarto de polegada de espessura. Qualquer vazamento nesses anéis seria catastrófico.
Meses antes do desastre, o engenheiro Roger Boisjoly estava alarmado. Em julho de 1985 — mesmo dia em que a professora Christa McAuliffe, escolhida para ser a primeira civil no espaço, apareceu no programa de Johnny Carson — ele escreveu memorando alertando superiores sobre "erosão dos O-rings" e "potencial criticidade de falha".
"Esta carta é escrita para assegurar que a gestão está plenamente ciente da seriedade do problema atual de erosão dos O-rings", dizia o documento, segundo citado pelo jornal americano. Uma repetição de problemas anteriores resultaria em "catástrofe da mais alta ordem: perda de vidas humanas".
Um ano antes, após lançamento em temperaturas excepcionalmente baixas, exame dos propulsores revelou danos nos anéis causados pelo frio. Testes confirmaram a relação entre temperatura e desempenho das vedações. Mas, conforme Boisjoly relatou posteriormente, "a gestão insistiu que essa posição fosse suavizada".
Na noite de 27 de janeiro de 1986, a previsão era de temperaturas próximas a zero grau para a manhã seguinte no Cabo Canaveral. Russell e todos os engenheiros na sala de conferências da Morton Thiokol em Utah eram unânimes: não lançar.
Durante teleconferência com oficiais da NASA em Cabo Canaveral e no Marshall Space Flight Center no Alabama, a posição inicial foi clara. Joseph Kilminster, vice-presidente da Morton Thiokol, declarou: "Baseado na recomendação de engenharia, não posso recomendar o lançamento", segundo relatou ao Washington Post.
Mas oficiais da NASA reagiram com consternação. Lawrence Mulloy, gerente de projeto dos propulsores, exclamou: "Meu Deus, Thiokol, quando vocês querem que eu lance, em abril?!" Os dados não eram conclusivos, argumentaram, e pressionaram por reavaliação.
A Morton Thiokol pediu pausa na teleconferência. Foi quando a dinâmica mudou. Sob pressão — incluindo perspectiva de perder futuros contratos para concorrentes — gestores reverteram a posição. Kilminster assinou documento aprovando o lançamento.
Allan McDonald, representante da companhia em Cabo Canaveral, tomou atitude rara: recusou-se a assinar. Conforme escreveu em suas memórias, alertou que não gostaria de ser quem teria que explicar a uma comissão de inquérito "por que lançamos fora das qualificações do motor de foguete sólido".
Russell ficou encarregado de enviar o fax com a recomendação, exatamente o oposto do que defendera. "Por que não falei?" questiona-se até hoje, em entrevista ao jornal americano. "Deve ter havido em mim um fator de intimidação, uma vez que a decisão foi tomada, de que eu não ousaria refutá-la. Esse é meu maior arrependimento."
Os membros da tripulação da missão STS-51L da NASA posam para fotografias em 9 de janeiro de 1986, durante um intervalo no treinamento — Foto: Nasa
Refletindo sobre aquela noite, Russell identificou problema fundamental na tomada de decisão. "Estou convencido de que o fardo da prova em relação à segurança foi invertido", disse ao Washington Post. "Em nossa recomendação, não conseguimos dizer qual seria a temperatura em que haveria falha. Não conseguimos provar que iria falhar."
Em vez de gestores precisarem demonstrar que era seguro prosseguir, engenheiros foram colocados na posição de ter que provar categoricamente que haveria desastre, impossível de fazer com certeza absoluta. A ausência de prova definitiva de perigo foi tratada como sinal verde.
Na manhã seguinte, apesar de temperatura de 22 graus Fahrenheit (cerca de -6ºC)antes do amanhecer e gelo pendurado na estrutura de lançamento, o Challenger decolou às 11h38. A temperatura ambiente era 36 graus Fahrenheit (2ºC), mas nas junções dos propulsores, com ventos enviando gases super-frios, estava ainda mais frio.
Exatamente como os engenheiros temiam, o frio comprometeu os O-rings. Gases quentes vazaram pelo propulsor direito. Aos 73 segundos de voo, o Challenger se desintegrou. A bordo estavam McAuliffe e seis astronautas: Richard Scobee, Michael Smith, Ronald McNair, Ellison Onizuka, Judith Resnick e Gregory Jarvis.
A NASA vinha sob críticas por custos elevados e atrasos constantes. O programa de ônibus espaciais havia prometido voos frequentes e econômicos, mas não cumpria expectativas. A seleção de McAuliffe como "professora no espaço" fazia parte de estratégia para recuperar interesse público.
Nos dias anteriores, múltiplos adiamentos por problemas técnicos e clima haviam se tornado motivo de piada em noticiários nacionais. A agência espacial estava determinada a lançar.
Alton Keel, diretor-executivo da comissão presidencial que investigou o acidente, disse ao Washington Post: "Eles deixaram as relações públicas atrapalharem o bom julgamento." Mesmo reconhecendo riscos inerentes aos voos espaciais, ele considera que "um exemplo trágico disso foi Christa McAuliffe. Ela não deveria ter sido colocada naquele voo."
Ed Corrigan, pai da professora, escreveu em caderno pessoal descoberto após sua morte que a filha "não morreu pela NASA e pelo programa espacial — ela morreu por causa da NASA e seus egos, decisões marginais, ignorância e irresponsabilidade", conforme revelou sua viúva em livro de memórias citado pelo jornal.
Wayne Hale, ex-diretor de voo da NASA, disse ao Washington Post que a cultura mudou após a Challenger, com "segurança tornando-se muito mais importante que cronogramas". A agência estabeleceu sistemas de denúncia anônima e mecanismos para encorajar dissidências.
Ainda assim, em 2003 o ônibus espacial Columbia se desintegrou durante retorno à Terra quando sua asa foi atingida por pedaço de espuma isolante. Investigações atribuíram o acidente também, em parte, a falhas de gestão da NASA.
Kilminster, hoje com 91 anos, disse ao jornal que permanece "assombrado" por ter participado da decisão que resultou nas mortes. Ele argumenta que desconhecia detalhes técnicos específicos sobre quão frias estavam as vedações. Mas Russell e outros engenheiros apontam que a temperatura ambiente já justificava adiamento.
A missão de Russell ao visitar centros da NASA em 2024 era garantir que funcionários "ouvissem de nós e sentissem o impacto emocional que vivenciamos". Para ele, a lição central é que líderes devem ouvir alertas de quem trabalha diretamente nos sistemas técnicos — e criar ambientes onde pessoas sintam-se seguras para discordar de decisões.

