Depois de fechar a compra da farmácia Target, que pertencia à Memed, no ano passado, o Mercado Livre começará neste ano seus primeiros passos no segmento farmacêutico, de olho em um mercado de cerca de R$ 20 bilhões.
Segundo Fernando Yunes, vice-presidente sênior e líder do Mercado Livre no Brasil, a ideia é iniciar a atuação via 1P, modelo no qual a empresa é responsável diretamente pelas vendas. Mas destacou que esse não é o objetivo final.
A meta é alterar a regulação para permitir que marketplaces possam vender medicamentos, integrando farmácias à plataforma, da mesma forma como já ocorre em outras categorias de produtos e em países como México, Chile e Argentina.
“Estamos conversando com a Anvisa e diversos stakeholders para modernizar a regulação no Brasil”, disse Yunes nesta terça-feira, 27 de janeiro, durante a Latin America Investment Conference (LAIC) 2026, promovida pelo UBS e UBS BB.
“Em paralelo a essas discussões, cujo prazo é incerto — seis meses, um ano ou mais — planejamos entrar via 1P, o que é permitido. Por isso, compramos uma farmácia e, com essa aquisição, obtivemos a autorização formal para operar”, complementou.
Yunes afirmou que o Mercado Livre “não tem o DNA” para ser um operador 1P de farmácia, ressaltando que a empresa não pretende comprar e vender medicamentos diretamente. “Se precisarmos fazer isso, é uma opção, mas preferimos ter uma rede de farmácias, como já fazemos em outras categorias”, disse.
Proposição de valor
O mercado de medicamentos é uma das principais apostas do Mercado Livre para os próximos anos, diante da baixa penetração no comércio online, mas não é a única.
A companhia também mira o mercado B2B, atendendo clientes corporativos, um público relevante para o Mercado Livre, mas limitado pelo fato de a plataforma ser voltada a pessoas físicas.
Yunes destacou que a empresa pretende trazer recursos já presentes em outros países, como descontos por volume de compras e ferramentas para atender às necessidades contábeis dos compradores.
“Existe todo um fluxo necessário para emissão de nota fiscal, é bem diferente”, disse. “É preciso ter uma experiência de usuário distinta para organizar os processos e cumprir o compliance exigido pelas companhias.”
Segundo ele, o B2B representa uma “oportunidade enorme” para o Mercado Livre, mas os primeiros resultados devem demorar a aparecer, devido à necessidade de adequar sistemas e processos. “Vai ser uma grande oportunidade, mas deve se consolidar em três ou quatro anos”, afirmou.
No curto prazo, além do segmento farmacêutico, o Mercado Livre quer expandir sua atuação em alimentos e bebidas, diante da baixa penetração desse setor no comércio online, próxima de 3%.
Yunes também destacou a necessidade de atrair mais marcas para terem lojas dentro da plataforma. “Nós já temos mais de 3,5 mil lojas oficiais, mas ainda há espaço para trazer novas marcas”, disse.
Esses investimentos fazem parte da estratégia do Mercado Livre de se fortalecer diante da chegada de novos players, especialmente asiáticos. Para Yunes, a competitividade é positiva, pois atrai mais consumidores para o universo digital, considerando que o mercado offline ainda é muito grande.
“O e-commerce no Brasil tinha uma penetração de 5% antes de 2020 e agora está em torno de 15% a 16%. Mas deveria alcançar 30% em cinco anos”, disse. “O mercado é competitivo, mas está crescendo e adicionando novos usuários.”
Para ele, a plataforma que se destacará nesse cenário será aquela que oferecer uma proposição de valor superior, com maior sortimento de produtos, preço justo, entrega rápida e bom atendimento pós-venda. O resultado será a redução do número de empresas.
“Esse tende a ser um segmento em que o vencedor se fortalece. E é muito difícil. Por que alguém compraria de um concorrente que oferece uma proposta de valor inferior, preço mais alto e entrega mais lenta? É muito difícil, e por isso tende a haver concentração”, concluiu.

