A cinquenta dias de expirar o prazo da patente da semaglutida no Brasil, no dia 20 de março, hoje comercializada exclusivamente pela dinamarquesa Novo Nordisk com as marcas Ozempic e Wegovy, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está debruçada atualmente na análise de três pedidos para fabricação das canetas similares.
A tendência é que as primeiras autorizações para que as concorrentes da Novo Nordisk coloquem seus produtos no mercado saiam até abril e as canetas de produção nacional cheguem às prateleiras das farmácias ainda no primeiro semestre.
Na primeira lista de liberação está a farmacêutica EMS, da família Sanchez, que já tem uma plataforma pronta para produção da semaglutida assim que sair a aprovação. No mesmo parque fabril, em Hortolândia (SP), a empresa já produz, desde agosto, as canetas Olire e Lirux, à base de liraglutida, cuja patente, também da Novo Nordisk, expirou em novembro de 2024.
A farmacêutica já tem pré-encomendas de matérias-primas, como a própria caneta, e do insumo farmacêutico ativo (IFA), de fornecedores da China, que só serão confirmadas após o registro liberado.
“Este vai ser o principal lançamento do mercado da nossa empresa em 2026. Estamos preparando para, assim que nosso pedido for analisado e aprovado pela Anvisa, dar início ao processo de produção”, diz Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, ao NeoFeed.
A perspectiva da companhia é de que a versão da EMS do Ozempic – ainda que, tecnicamente, seja considerado um medicamento referência, a partir da concepção e estudos próprios – gere receita entre R$ 350 milhões e R$ 400 milhões nos primeiros 12 meses após o início efetivo das vendas. O plano é comercializar, no mesmo período, algo em torno de 700 mil canetas.
A informação sobre o número atualizado de pedidos em análise foi confirmada com exclusividade ao NeoFeed pela Anvisa, que ainda tem mais solicitações na fila. Das três propostas que estão sendo analisadas, duas são de medicamentos sintéticos (considerados uma plataforma mais atual) e uma de produto biológico, que está na fase de exigência técnica, quando há a solicitação de novos documentos.
Ainda segundo a agência, somando os que ainda estão no aguardo para iniciar a etapa de análise, hoje existem 13 pedidos de registros (sendo 11 sintéticos, um biológico e outro de semaglutida combinada com insulina com icodeca).
Também há sete pedidos para liraglutida, sendo uma em análise no momento. A patente da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, da americana Eli Lilly, que começou a ser vendido no Brasil em maio de 2025, expira em 2032.
A ação da Anvisa decorre da publicação de edital, em agosto do ano passado, garantindo prioridade na avaliação de registros de liraglutida e semaglutida que tenham fabricação em solo brasileiro. Na prática, isso fez com que esses pedidos “pulassem a fila” de outras solicitações para demais medicamentos.
Desde que as canetas emagrecedoras se tornaram uma febre global e passou a representar uma fatia relevante da receita das fabricantes e das varejistas, muitas companhias demonstraram interesse na produção, como a Biomm, Cimed, Prati-Donaduzzi, Hypera, entre outras.
A Eurofarma também fez um pedido formal à Anvisa para produção da semaglutida, mas recuou ainda no ano passado.
“O contrato celebrado no passado com empresa terceira para produto à base de semaglutida, foi rescindido em 2025. Em decorrência disso, o dossiê que havia sido submetido à Anvisa foi transferido, em 18 de setembro de 2025, para a Ávita Care Importação e Distribuição de Produtos Ltda., que passou a ser responsável pelo prosseguimento regulatório”, diz a companhia, em nota ao NeoFeed.
Mas, de certa forma, a Eurofarma já entrou no mercado das canetas emagrecedoras, ainda que não pelo caminho da produção. Em outubro do ano passado, a companhia celebrou uma parceria com a Novo Nordisk para distribuir duas novas marcas de semaglutida no Brasil – Poviztra (para obesidade) e Extensior (para tratamento de diabetes).
Pelo acordo estabelecido, a dinamarquesa fica responsável pela fabricação dos produtos, que vêm da fábrica da companhia na Dinamarca, e a Eurofarma cuida da distribuição e da comercialização dos medicamentos no País.
“A companhia esclarece ainda que já disponibiliza ao mercado Poviztra e Extensior, duas marcas de semaglutida, fruto de parceria com a farmacêutica detentora da patente da molécula, reafirmando o compromisso com a ampliação do acesso a tratamentos de qualidade”, completa a Eurofarma.
Na prática, a iniciativa foi vista pelo mercado como uma ação preventiva da Novo Nordisk para capturar o usuário do medicamento emagrecedor, mas que procura uma opção mais barata do que o Ozempic, antes mesmo da chegada dos similares.
A disputa por espaço nas gôndolas integra um mercado potencial que alcançou R$ 10 bilhões de vendas de canetas em 2025 no Brasil, incluindo semaglutida, liraglutida (patente já expirada) e tirzepatida (patente do Mounjaro, produzido pela Eli Lilly, vai até 2036), segundo relatório de janeiro do Itaú, com possibilidade de chegar a R$ 20 bilhões em 2026.
“Nossa estimativa é que o mercado de GLP-1 atinja pelo menos US$ 9 bilhões (R$ 50 bilhões) no Brasil até 2030, ante cerca de US$ 1,8 bilhão (R$ 10 bilhões) atualmente, o que representa uma taxa de crescimento anual composta de 40% em cinco anos”, diz o documento assinado pelos analistas de consumo, saúde e alimentos do banco.
E justamente para absorver este provável aumento da demanda, as principais redes varejistas farmacêuticas já se preparam para capturar os possíveis novos clientes dos medicamentos emagrecedores.
Ainda segundo o Itaú, o avanço dos medicamentos análogos ao GLP-1 pode representar uma fatia de cerca de 20% nas receitas da RD Saúde (dona da Raia e Drogasil), Pague Menos e Panvel, contra de 8% a 9% do cenário atual. Isso levando em conta os preços mais baixos, mas que garantem margens superiores.
Dados da consultoria Close-Up International mostram que, somente em novembro de 2025, o mercado de medicamentos para obesidade, incluindo todas as canetas disponíveis no Brasil, garantiu ao varejo farmacêutico uma receita de R$ 1,5 bilhão, o que representa um aumento de 127% sobre o mesmo mês de 2024.
Preocupação do varejo farmacêutico
Segundo a Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a chegada dos modelos similares da semaglutida deve ser, de fato, a principal alavanca de crescimento das principais empresas do setor.
“As farmacêuticas estão prontas para este novo momento do setor, a partir da chegada de novos medicamentos de GLP-1. Entendo que este é o primeiro grande salto, já que, ainda em 2026, devem chegar outras formulações, como comprimidos, e outros princípios ativos”, diz Sérgio Mena Barreto, presidente da Abrafarma, ao NeoFeed.
Mas, junto com a chegada de mais produtos às prateleiras, o executivo da Abrafarma traz um problema oculto e que já entra no radar do balanço das varejistas: o aumento crescente dos roubos dos lotes de canetas.
Segundo a entidade, somente em São Paulo as perdas chegaram a R$ 70 milhões, com o roubo de quase 60 mil unidades de canetas.
“A gente se reuniu recentemente com a cúpula da segurança pública do Estado demonstrando nossa preocupação, principalmente a partir do aumento da quantidade desses produtos nas prateleiras. É preciso garantir a segurança das pessoas e do estoque das farmácias”, afirma Barreto.
A Novo Nordisk tem tentado, via Justiça, estender o período de exclusividade de vendas, sob alegação de que a demora da aprovação do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi) teria prejudicado a companhia.
Mas, em dezembro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pleito da farmacêutica de ampliar a vigência da exclusividade até 2039. Por lei, o prazo da patente no Brasil dura 20 anos.
O colegiado manteve a decisão de 2021 do Supremo Tribunal Federal (STF), que já havia vedado o aumento do prazo. Segundo os ministros, a patente passou a ser assegurada a partir de março de 2006, quando foi feito o pedido junto ao Inpi. Dessa forma, a exclusividade acaba em março deste ano.
Ao NeoFeed, a Novo Nordisk informou, por nota, que “ainda está avaliando a possibilidade de recorrer da decisão do Superior Tribunal de Justiça quanto à decisão sobre a queda da patente da semaglutida”.
“A Novo Nordisk pleiteou proteção em 20/03/2006, o primeiro paciente a receber semaglutida no âmbito dos estudos clínicos foi em 2013, e a patente só foi concedida em 07/05/2019”, diz.
“Logo, está claro que a demora no Inpi não prejudica apenas as empresas ou titulares de patentes. Prejudica também a população, que deixa de receber tratamentos inovadores com agilidade”, completa a farmacêutica.

