Na primeira semana de fevereiro, quem entrar na Trilha Cervejaria vai se deparar com sabores que vão muito além de água, malte, lúpulo e fermento, os quatro tradicionais ingredientes da cerveja. Os aromas bolo de coco e chihuahua, com toques de uva e lichia, serão os lançamentos oferecidos por uma marca conhecida por ser fora do comum.
O novo ano nem bem começou e a Trilha, criada pelos amigos de infância e amantes de cerveja Daniel Bekeierman e Beto Tempel – um com anos de experiência no mercado corporativo e outro com longa trajetória na gastronomia, respectivamente – já lançou quatro rótulos, um para cada semana de 2026.
De pequenos lotes em pequenos lotes, a cervejaria paulistana desenvolveu cerca de 500 sabores diferentes da bebida em dez anos de existência. E poucos deles se encaixam na categoria tradicional.
Em suas quatro unidades abertas em São Paulo, a Trilha oferece sabores como pão de mel, café, frutas amarelas e até caju com coentro, além das mais comuns variedades de IPA e Pilsner, todas com o chamado "toque Trilha". No total, são desenvolvidos ao menos 52 novos rótulos por ano, todos com identidade visual distinta e única, desenvolvida internamente para se diferenciar da imagem "pesada" de cerveja explorada pelo mercado.
Por lá, a mais vendida é a Melonrise, a primeira receita criada pelos sócios, que contém melão e lúpulos nobres em quantidades dez vezes superiores a uma IPA tradicional. Na bebida, é utilizada uma técnica que extrai aromas e sabores mais intensos, que, em conjunto com a tese da cerveja não pasteurizada, a torna sensorialmente mais explosiva. Sua lata de 350 mililitros (ml) custa R$ 30 - a mesma faixa de preço dos rótulos oferecidos por lá.
“Desde o início, a nossa ideia era nos posicionar no topo da categoria e melhorar a visão que o brasileiro tem da cerveja”, afirma Bekeierman, em entrevista ao NeoFeed.
“Para isso, a nossa cerveja precisava ser inventiva e escapar da lógica da cadeia de distribuição da grande cervejaria. Assim, apesar de fazermos alguns estilos mais clássicos, nossa vocação é aproveitar o que temos de melhor em ingredientes por aqui e sair da caixinha”, complementa.
Para conseguir desenvolver esses sabores incomuns, eles levantaram capital no esquema family and friends para “quebrar o código” das cervejas que viam no mercado internacional, como a Holanda, a Bélgica e os Estados Unidos. Com esse foco, eles montaram um pequeno laboratório e trouxeram 60 das melhores cervejas internacionais, até encontrar a sua própria receita – e dela desenvolver as futuras invenções.
Aquele laboratório se transformou em uma fábrica com capacidade de 18 mil litros por mês, que suporta os 20 tipos de cervejas vendidos pela companhia. Na Trilha, a produção é bastante variada. Alguns sabores chegam para ser limitados, com apenas mil latas envazadas, enquanto os rótulos fixos são produzidos a todo momento.
A próxima fase de expansão da cervejaria está traçada. A Trilha quer atingir ao menos 15 pontos físicos em São Paulo, explorando parte do potencial gastronômico que os sócios acreditam estar subvalorizado na região. Ainda em fevereiro de 2026, o grupo inaugurará mais uma unidade, desta vez localizada no bairro de Higienópolis, na famosa Praça Vilaboim.
Mesmo crescendo, a capacidade da Trilha está longe de se aproximar das gigantes cervejarias tradicionais, mas essa realmente não é a intenção da empresa. Para os fundadores, uma coisa sempre foi muito clara: a Trilha é uma cerveja especial, que deve ser degustada e apreciada em momentos específicos, o que não bate de frente com a categoria de base do mercado.
“O nosso público transita entre cervejas comuns e artesanais, ou seja, ele vai para uma roda de samba e vai tomar uma cerveja litrão, mas também vai ter um momento da semana que vai separar para beber uma Trilha de maneira mais consciente, apreciando aquele produto”, diz Bekeierman. “Para nós isso é muito natural. É um consumo complementar e está ótimo”.
Apesar do mercado já estar bastante estabelecido, o empresário afirma que vê mudanças significativas no consumo dos mais jovens, que, em meio à busca pela saúde e qualidade de vida, têm dado preferência a bebidas mais artesanais, das quais entendem as origens e valorizam a forma de produção.
É em busca desse público que a Trilha desenvolve diversas parcerias com restaurantes e marcas, além de criar eventos como corridas temáticas, desenvolvendo uma verdadeira rede de contato com os consumidores, que muitas vezes não têm acesso ao mundo da cerveja artesanal.
Competitividade da cerveja artesanal
Entre 2020 e 2025, o número de cervejarias no Brasil passou de 1.383 para 1.949, o que fez a competitividade aumentar ainda mais. Apesar do gosto do consumidor pela cerveja feita de forma artesanal estar muito mais maduro e crescer ano a ano, o setor continua sendo bastante desafiador.
Para Bekeierman, o motivo de muitas cervejarias fecharem de forma prematura está na concepção das mesmas. “Hoje o homebrewing, que é a produção caseira de cerveja, é muito forte, né? A pessoa começa a fazer um produto, chama os amigos para experimentar, eles ficam apaixonados e, de repente, ele abre uma cervejaria para vender esse produto”, diz.
Na visão dele, ao mesmo tempo que a revolução do mercado começou dessa forma, também existe o problema da falta de estruturação, já que aquilo não foi pensado como um negócio.
“O cara que faz cerveja na panela em casa e abre uma cervejaria, não pensou muito em marca, posicionamento, distribuição e não tem muita ambição… o poder dele é esse, é o produto que se vende”, conta o empresário. “Mas ao mesmo tempo é um desafio”.
Esse problema a Trilha não vive. Com propósito e marca bem definidos desde a sua criação, hoje a marca vai além do Brasil e atende pedidos internacionais de suas criações. Até hoje, a empresa já exportou cerveja para a Europa três vezes e fez colaborações de sabores nos Estados Unidos.
Agora, o foco da cervejaria está em ampliar o leque de consumidores e de bebidas, apostando em produtos como chás e até uísque envelhecido em barril de cerveja.
“Como temos nossa rede de distribuição e fabricação estabelecida, é o momento de abrirmos a cabeça e levar a criatividade para outros patamares. Vemos muitas oportunidades nos próximos anos”, afirma Bekeierman.

