Após negar insolvência publicamente, inclusive em comunicado oficial à imprensa no dia 13 de janeiro, o Grupo Fictor protocolou neste domingo (1º) pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para a Fictor Holding e a Fictor Invest. O grupo havia divulgado no ano passado uma proposta de compra do Banco Master, às vésperas da liquidação da instituição pelo Banco Central (BC).
O questionamento sobre o problema de liquidez decorreu de reclamações de investidores por atrasos no pagamento de dividendos no final de 2025 e posteriores pedidos de resgate, que teriam causado um efeito em massa no mercado, levando ao comprometimento da capacidade de pagamento, segundo a empresa.
Os pagamentos em atraso estão relacionados às Sociedades em Conta de Participação (SCPs), modelo que permite que investidores aportem recursos em projetos específicos e participem dos resultados da companhia.
Em comunicado oficial, o Grupo Fictor afirma que o pedido de recuperação judicial tem como objetivo “equilibrar a operação e assegurar o pagamento dos compromissos financeiros, com foco nos sócios participantes – que representam a grande maioria dos credores”.
A Fictor afirma ainda que a iniciativa busca “criar um ambiente de negociação estruturada e com tratamento isonômico”, garantindo a continuidade de suas atividades.
Em reação ao pedido de recuperação judicial, as ações da Fictor Alimentos S.A. (FICT3), única empresa do grupo listada na B3, registravam queda de 33% às 12h17 (horário de Brasília), negociadas a R$ 0,76. No acumulado do mês, a desvalorização supera 45%.
O pedido de recuperação judicial não inclui as subsidiárias. Segundo o advogado Carlos Deneszczuk, do escritório DASA Advogados, que coordena o processo, os ativos operacionais seguem funcionando e a base produtiva permanece relevante.
“O pedido de RJ não inclui as subsidiárias, que devem seguir com suas rotinas, contratos e projetos. O objetivo é evitar que empresas economicamente viáveis sejam afetadas por restrições típicas do processo recuperacional, impossibilitando o soerguimento do grupo, preservando fornecedores, clientes e empregos enquanto a reestruturação financeira é conduzida no nível corporativo”, concluiu.
No comunicado, o Grupo Fictor informa que o valor total das dívidas é de aproximadamente R$ 4 bilhões e que “pretende realizar a quitação sem nenhum deságio”.
No pedido de recuperação judicial, foi solicitada tutela de urgência para suspender execuções e bloqueios por um período inicial de 180 dias. Segundo a empresa, a medida busca “reduzir o risco de corridas individuais que pressionem ainda mais a liquidez e prejudiquem uma solução coletiva e equânime”.
Durante esse período, previsto na legislação, a companhia garante o direito de negociar um plano de recuperação, com novas condições e prazos de pagamento, sem interrupção das operações. Segundo o comunicado, a estratégia visa preservar mais de 10 mil empregos diretos e indiretos.
Às vésperas do pedido de recuperação judicial, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou o bloqueio cautelar de contas da holding Fictor e ordenou a recomposição de R$ 150 milhões retirados de uma conta de garantia. A decisão se baseia no risco de insolvência da empresa após os desdobramentos da liquidação do Banco Master.
De acordo com o processo, que corre em segredo de Justiça, a Fictor é obrigada por contrato a manter esse valor como garantia por atuar na oferta de cartões de crédito Amex, intermediados por uma processadora de pagamentos, para mitigar riscos de inadimplência.
Mesmo com a interferência da Justiça, a empresa sustenta que o pedido de recuperação judicial é consequência de uma crise de liquidez momentânea iniciada em 18 de novembro do ano passado, quando o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master.
De acordo com o grupo, um consórcio liderado por um sócio da Fictor havia feito uma oferta para a aquisição e transferência de controle do banco. No entanto, com a decretação da liquidação da instituição um dia após o anúncio, a reputação do grupo foi afetada por especulações de mercado.
Essas especulações teriam gerado, segundo a empresa, um grande volume de notícias negativas, impactando diretamente a liquidez da Fictor Invest e da Fictor Holding.
No entanto, somam-se a esse cenário os atrasos no pagamento de dividendos e em pedidos de resgate que ganharam força no início deste ano. Na plataforma Reclame Aqui, o volume de reclamações contra a Fictor aumentou de forma relevante. Entre julho e dezembro do ano passado, a empresa recebeu 12 reclamações. Apenas em janeiro deste ano, o número chegou a 39, um aumento de 225%, segundo levantamento da Folha.
Na ocasião, a Fictor afirmou estar atravessando “um momento atípico na história da companhia”, que resultou em um “desafio temporário de liquidez e de timing operacional”. Segundo a empresa, o atraso não decorria de insolvência, tampouco da falta de compromisso com investidores, fato controverso desmentido nesta segunda-feira por do comunicado oficial.
Desde o primeiro contato do Monitor do Mercado, a empresa afirma que em suas operações não havia registro de atrasos de nenhuma natureza e que antes do episódio envolvendo o Banco Master, o grupo operava normalmente e cumpria rigorosamente suas obrigações com investidores.
O problema de insolvência, anteriormente negado em nota oficial à imprensa, é atribuído pela empresa aos pedidos em massa de resgate e a processos movidos por investidores.
Uma fonte que preferiu não se identificar declarou que “ela (a Fictor) nunca deixou de pagar nenhum resgate, nenhum pedido, nenhuma rentabilidade das operações dos investidores antes”. Segundo essa fonte, após o episódio do Banco Master, houve pedidos simultâneos de resgate superiores a 80%, levando à “quebra da empresa”.
A mesma fonte afirmou que o mercado vem questionando a capacidade de caixa da empresa devido à tentativa de compra do banco. No entanto, esclarece que o pagamento da aquisição ocorreria de forma parcelada ao longo de cinco anos.
Segundo informações obtidas pelo Monitor, a Fictor negociava (e ainda está em tratativas) com o Royal Capital, um dos fundos árabes que participariam da operação. “Com a entrada desse fundo, poderia ser viável o pagamento no dia 12 de fevereiro (aos investidores), só que, com as negociações, o fundo achou melhor se reestruturar no fluxo de caixa com uma recuperação judicial para que ele tivesse a segurança de entrar de forma mais coordenada”, afirmou.
Segundo apuração do Monitor do Mercado, a proposta de aquisição do Banco Master previa fatores condicionantes. Entre eles, o vendedor deveria realizar aumento de capital por meio de capitalização de créditos no valor mínimo de R$ 3 bilhões.
Além disso, estavam previstas a conclusão de relatório de auditoria dos ativos do banco e um aumento de capital adicional de R$ 3 bilhões por investidores institucionais previamente identificados e aceitos pelas partes.
O consórcio pagaria até R$ 3 bilhões ao vendedor, sujeito a ajustes. Como condicionante de preço, o patrimônio líquido do Banco Master, após eventuais ajustes decorrentes da auditoria, deveria ser de no mínimo R$ 8 bilhões.
Caso o patrimônio líquido indicado no balancete de fechamento fosse inferior ao valor pactuado, o preço de compra seria reduzido proporcionalmente, sem qualquer limitação de decréscimo.
O valor final seria pago ao longo de cinco anos com os resultados do próprio banco, tendo como principal vetor o direito de exploração de 206 convênios de crédito consignado a servidores públicos.
Com a crise instaurada como desdobramento do caso Master, o Grupo Fictor colocou em prática um plano de reestruturação que inclui a redução de sua estrutura física e do corpo de colaboradores.
Segundo a empresa, esse movimento foi decidido antes do pedido de recuperação judicial, com a finalidade de proteger os direitos dos trabalhadores e agilizar o recebimento de indenizações trabalhistas.
Fundado em 2007, o Grupo Fictor atua nos setores de indústria de alimentos, energia, infraestrutura, real estate e soluções de pagamento.
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