Grupos voluntários monitoram bairros do país durante ofensiva da agência anti-imigraçãoGrupos voluntários monitoram bairros do país durante ofensiva da agência anti-imigração

Redes de vigilância e resistência crescem contra ao ICE nos EUA

2026/02/07 19:00
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Civis estão se organizando em redes de observação para monitorar o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) nos Estados Unidos. O movimento acontece em resposta ao aumento de operações federais desde o final de 2025.

As redes de monitoramento, chamadas “ICE Watchers” (“Observadores do ICE”, em tradução livre), atuam mobilizando voluntários para acompanhar em tempo real e registrar em vídeo as ações do Serviço de Imigração. 

O grupo de vigilância Defend the 612 criou chats criptografados para coordenar a atuação dos ativistas na cidade de Minneapolis, no Estado de Minnesota. O nome faz alusão ao DDD telefônico da cidade. Os canais são utilizados para compartilhar informações sobre a presença de agentes, organizar treinamentos e orientar participantes sobre como documentar abordagens federais.

Segundo os dados divulgados pelo Defend the 612, mais de 80.000 cidadãos de Minneapolis “estão envolvidos em grupos de Resposta Rápida e redes de apoio por toda a cidade”. O grupo também diz: “Minneapolis não aceitará a ocupação federal e a invasão violenta de tropas de choque imorais que receberam ordens para aterrorizar nossa comunidade e promover tumultos em nossas ruas.

As mobilizações ganharam força na cidade com o início da “Operation Metro Surge”, lançada pelo governo de Donald Trump (Partido Republicano) em dezembro de 2025, que levou cerca de 3.000 agentes a uma ofensiva de fiscalização migratória na região metropolitana de Minneapolis e Saint-Paul. Em janeiro de 2026 a operação causou o assassinato do enfermeiro Alex Pretti e da escritora Renee Good, ambos com 37 anos. 

Para o professor de geopolítica Roberto Uebel, esse contexto explica a intensificação das redes civis de vigilância. Segundo ele, “a atuação do ICE se tornou mais visível e assertiva, levantando questionamentos sobre direitos humanos. Há denúncias e críticas relacionadas à violação de jurisdições estaduais e municipais, bem como à ampliação do poder federal sobre esses territórios“.

Além dos associados ao Defend the 612, outros vigilantes também atuam na cidade. Os irmãos Sam e Ben Luhmann, de 16 e 17 anos, começaram a acompanhar operações federais em Chicago no 2º semestre de 2025, e em janeiro de 2026 passaram a observar o ICE em Minneapolis. Os adolescentes utilizam celulares e câmeras portáteis para registrar abordagens, identificar veículos e enviar alertas a outros observadores. 

A reação do ICE aos vigilantes

Nesta 3ª feira (3.fev.2026), agentes federais de imigração prenderam ativistas que acompanhavam veículos do ICE em Minneapolis. No mesmo dia, autoridades estaduais foram às escolas da cidade para alertar sobre o impacto da ofensiva migratória. Segundo a Associated Press, ao menos uma pessoa com mensagens anti-ICE na roupa foi algemada no chão por seguir os agentes à distância. 

O governador de Minnesota, Tim Walz (Partido Democrata), se posicionou sobre os ocorridos: “Nada disso é normal. Nada disso está certo. Nada disso torna Minnesota mais segura”. Walz também afirmou que há “menos fumaça nas ruas”, em referência a redução do uso de gás lacrimogêneo em operações, mas que o momento é “mais assustador” por atingir crianças e comunidades escolares.

Brandon Sigüenza, também vigilante, descreveu ao The Guardian como foi sua prisão depois de seguir veículos do ICE: “Eu disse a ele [agente de imigração]: ‘Senhor, meu passaporte está no meu bolso’. Ele respondeu: ‘Cala a boca’.” 

Sigüenza e sua amiga Patty O’Keefe tiveram os vidros do carro quebrados, foram retirados à força por agentes e levados ao edifício federal BH Whipple, permanecendo detidos por horas sem acusação.

Nas redes sociais, casos semelhantes foram relatados. Em 20 de dezembro, na cidade de Columbus, em Ohio, Jessica Lucia Villa, de 20 anos, e sua irmã, Alexa, de 18, capturaram em vídeo o momento em que foram abordadas por agentes de imigração. As jovens seguiram veículos que acreditavam ser do ICE para alertar vizinhos sobre a presença da agência nas redondezas. “Esta é sua única advertência. Se vocês nos seguirem de novo, vamos parar vocês, quebrar sua janela e prendê-las”, afirmou o agente.

Outra observadora, em entrevista sob anonimato para o Guardian, contou que agentes quebraram o vidro de seu carro, borrifaram químicos dentro do veículo e a algemaram: “Todo o incidente foi doloroso e humilhante”. Segundo ela, os agentes gritaram insultos transfóbicos enquanto pressionavam seu rosto no chão: “Você gosta de sujeira, viadinho?”.

Vigilantes armados

A atuação do ICE tem levado a um aumento na procura por armas de fogo e cursos de treinamento entre norte-americanos que se identificam como liberais ou de esquerda, afirmam grupos armamentistas de esquerda dos EUA.

Em Minneapolis e St. Paul, as inscrições para cursos de tiro da Pink Pistols Twin Cities, grupo que oferece treinamento para pessoas LGBTQ+, subiram de uma média de 5 participantes por turma para cerca de 25. Segundo a organização, foi necessário abrir 7 novas turmas, que também estão próximas da lotação máxima. “Nos últimos dias, houve uma mudança”, disse à CNN Lara Smith, porta-voz nacional do Liberal Gun Club, 2 dias depois do assassinato de Alex Pretti. “Isso alterou as opiniões da esquerda.”

O Liberal Gun Club, presente em 30 Estados, relatou um aumento de 5 vezes no número de integrantes desde novembro, passando de 2.700 para 4.500. Não existem, porém, números oficiais e concretos, já que a filiação política não é um requisito para comprar armas nos Estados Unidos.

Se vocês [ICE] acham que podem vir e brutalizar as pessoas enquanto estamos aqui, vão se arrepender“, diz Paul Birdsong, que se identifica como presidente da seção da Filadélfia do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, em vídeo divulgado nas redes sociais. 

Somos o mesmo Partido dos Panteras Negras de antigamente, só que um pouco mais agressivos agora, sacou? Portamos armas maiores, não toleramos nenhuma besteira”, acrescenta o homem que se apresenta como herdeiro do legado de Bobby Seale e Huey P. Newton, que fundaram o partido original em 1966 e se armaram para enfrentar a violência policial contra afro-americanos na luta por direitos civis. 

Nas redes sociais, circulam também vídeos de cidadãos armados vigiando seus bairros contra o Serviço de Imigração. “Eu sempre fui uma pessoa liberal, mas depois de ver os vídeos do ICE saltando de veículos sem placa e atacando pessoas nas ruas, eu comprei meu primeiro [fuzil] AR-15”, afirmou um homem norte-americano não identificado, para o veículo Now This Impact. “Nós estamos enfrentando tirania agora, e eu quero estar preparado quando esse tipo de coisa chegar no meu bairro”, disse. 

Em St. Paul, outro homem, que preferiu não se identificar, foi filmado portando um fuzil na frente de sua residência. “Eu protejo os meus. Este é nosso bairro mostrando serviço“, afirmou ao veículo Freedom NTV. Ele também disse que, junto a ele, haviam pelo menos mais 30 vigilantes nas redondezas.

A legislação de Minnesota permite que cidadãos portem armas em público, desde que não sejam empunhadas de maneira intimidatória.

Autoridades do DHS (Departamento de Segurança Interna dos EUA) afirmaram que Alex Pretti foi baleado depois de supostamente se aproximar armado e resistir violentamente a uma abordagem de oficiais do ICE. Filmagens feitas por testemunhas mostram Pretti segurando apenas um telefone antes de ser empurrado ao chão e alvejado.

O governo Trump tem adotado discurso crítico ao porte de armas em protestos contra o ICE. Em 27 de janeiro, o presidente afirmou em entrevista que “você não pode ter armas, andar por aí armado“, em referência a Pretti. Ao ser questionado por uma repórter sobre a “Segunda Emenda”, que garante a posse de armas nos EUA, o presidente disse que “nós vamos dar um jeito nisso“. 

Durante a entrevista, Trump também lamentou a morte do enfermeiro. “É um incidente muito triste”, disse.

Para o internacionalista Matias Spektor, os ocorridos não são um acidente, e fazem parte da estratégia política de Trump. “Do ponto de vista do direito e dos direitos humanos, são atitudes questionáveis, mas que estão levando a uma redução progressiva do fluxo migratório em direção aos Estados Unidos. Ele está entregando o que ele prometeu“, afirmou em entrevista ao Poder360.

A atuação recente do ICE

Em 28 de janeiro, o ICE autorizou seus agentes a efetuarem prisões sem a necessidade de mandados judiciais, por meio de um memorando do diretor interino da agência, Todd M. Lyons. 

A nova diretriz permite que agentes do ICE façam detenções com base em mandados emitidos pela própria agência, quando considerarem que a pessoa corre risco de fugir do processo imigratório. Até então, esse critério era aplicado principalmente a casos em que havia indicação clara de que o imigrante não compareceria a audiências futuras.

Segundo o texto oficial do memorando, um agente pode considerar que um imigrante é “propício à fuga” se acreditar que a pessoa não permanecerá no local da abordagem até que um mandado administrativo seja obtido. 

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