A liderança que funciona não é a que aguenta tudo, é a que permite que outros também carreguem junto Getty Images Quem vai querer liderar daqui a dez anos A liderança que funciona não é a que aguenta tudo, é a que permite que outros também carreguem junto Getty Images Quem vai querer liderar daqui a dez anos

O fim do líder herói

2026/02/10 17:00
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A liderança que funciona não é a que aguenta tudo, é a que permite que outros também carreguem junto — Foto: Getty Images A liderança que funciona não é a que aguenta tudo, é a que permite que outros também carreguem junto — Foto: Getty Images

Quem vai querer liderar daqui a dez anos? A pergunta pode parecer dramática, mas dados sugerem que ela é urgente. Segundo o estudo Deloitte Global 2024, apenas 38% dos jovens da geração Z têm interesse em ocupar cargos de liderança. O motivo? Medo da exaustão e da perda de qualidade de vida.

Essa geração cresceu observando seus pais e chefes adoecerem, e decidiu não seguir o mesmo roteiro. Durante décadas, celebramos o líder-herói. Aquele que sabia tudo, resolvia tudo, raramente demonstrava fragilidade. O gestor que chegava antes, saía por último e era aplaudido por "aguentar a pressão". Esse modelo está ruindo. E iso não é só uma percepção: os dados confirmam.

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A Gartner mostrou que 60% dos líderes consideram sua função mais estressante hoje do que há cinco anos, e quase metade (45%) já cogitou deixar o cargo de gestão. Não estamos falando de profissionais fracos ou descomprometidos, estamos falando de gente exausta. Se nada mudar, em poucos anos teremos um problema real: ninguém vai querer liderar.

A Harvard Business Review chamou isso de "paradoxo da liderança moderna": quanto mais as empresas falam de empatia e humanização, mais sobrecarregados e solitários seus líderes se sentem. Exige-se cuidado, mas raramente se oferece estrutura para sustentá-lo.

Líderes são cobrados para escutar, inspirar, engajar, desenvolver pessoas, promover diversidade, cuidar da saúde mental do time e ainda entregar resultados cada vez mais agressivos. Tudo isso sem tempo, sem preparo emocional, sem rede de apoio. O discurso mudou, mas a estrutura não. E quando a estrutura não muda, quem paga a conta é o líder. E, logo depois, o time inteiro.

Os dados do Censo de Saúde Mental da Vittude — Ano Base 2025 mostram isso com clareza. Analisamos 174.475 trabalhadores de 35 empresas de grande porte. Um dos achados mais consistentes: a liderança é o fator com maior correlação com todos os indicadores de saúde mental e risco psicossocial.

Onde a liderança é bem avaliada, os índices de segurança psicológica são altos. E onde a segurança psicológica é alta, a síndrome de burnout praticamente não existe. Onde a liderança é percebida como autoritária, distante ou despreparada, o cenário se inverte: mais sofrimento, mais presenteísmo, mais silêncio, mais rotatividade.

O presenteísmo médio que encontramos foi de 32% — ou seja, quase um terço da capacidade produtiva desperdiçada porque as pessoas estão presentes, mas não estão bem. Em ambientes com liderança frágil, esse número sobe. Liderar não é sobre controle, e sim sobre presença. E presença exige consciência, escuta e um olhar humano que só se sustenta quando o próprio líder está bem.

O novo líder: humano, não herói

O futuro da liderança não está na força, mas na sensibilidade. Está em quem tem coragem de dizer "não sei", de pedir ajuda, de reconhecer limites, e de criar espaços de confiança onde as pessoas possam errar, discordar e propor, sem medo de retaliação. Empresas que entenderam isso já estão colhendo os frutos.

No Censo da Vittude, as organizações com alta segurança psicológica apresentaram não só menos burnout, mas mais engajamento, inovação e capacidade de adaptação. Porque times que confiam em seus líderes entregam não por medo, mas por pertencimento. A liderança que funciona não é a que aguenta tudo, é a que permite que outros também carreguem junto.

Eu poderia ter escrito esse artigo apenas com dados e tendências. Mas tem algo acontecendo comigo que mudou minha forma de enxergar tudo isso: estou grávida, na reta final. A Lara está prevista para abril.

Enquanto a Vittude atravessa uma fase de amadurecimento e consolidação, com breakeven alcançado, governança fortalecida e mercado em transformação (com a NR-1 às vésperas de entrar em vigor), eu tenho vivido uma transformação paralela. E, curiosamente, as duas jornadas estão me ensinando a mesma coisa.

Estou aprendendo que liderar não é segurar tudo, é permitir que outros segurem comigo. Estou aprendendo que delegar é um gesto de confiança e de construção de autonomia, não de perda de controle. Estou aprendendo a respeitar o tempo das coisas, das pessoas e da vida. E percebo, dia após dia, que esse processo não está me tornando uma líder mais fraca. Está me tornando uma líder mais humana, mais calma, mais consciente de que cuidado é uma forma de força, não de fragilidade.

O líder-herói foi útil em um mundo que valorizava comando e controle, e esse mundo acabou. O que o futuro exige é diferente: chefes que sabem pedir ajuda e constroem times que funcionam sem depender de uma única pessoa, sabendo que sua saúde mental é pré-condição para a saúde mental de quem lidera. Liderar, assim como gestar, é um ato de confiança contínua no que ainda está se formando.

Por isso, talvez o ato mais corajoso de um líder hoje seja admitir: eu não preciso ser herói, preciso ser humano.

*Tatiana Pimenta é fundadora e CEO da Vittude

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