Precisamos aceitar que a duração e a qualidade do sono vai diminuir conforme envelhecemos — Foto: Getty Images
Especialista em sono, o professor da USP Mario Pedrazzoli diz que precisamos aceitar que a qualidade e a duração do sono vão diminuir conforme envelhecemos, mas que isso é parte do ciclo da vida. Precisamos aceitar.
Quando estamos na casa dos 30 anos, é normal dormir oito horas por noite, sendo duas horas de sono REM (fase do sonho). Conforme a idade avança, porém, a quantidade de sono diminui gradativamente. Depois dos 50, cai para menos de seis horas, sendo uma de sono REM.
O senso comum — adotado também por muitos médicos — considera essa mudança um problema de saúde, tratável com medicamento. “A ideia de que o idoso dorme mal é um equívoco - ele dorme menos. O problema é a pessoa achar que deveria estar dormindo como na juventude”, diz Mário Pedrazzoli, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em sono (saiba mais sobre ele na coluna “Cientista brasileiro espera 25 anos para ver sua pesquisa virar remédio que trata distúrbio do sono")
“O melhor tratamento para insônia é a terapia comportamental, pois ensina a pessoa a entender e a lidar com suas crenças sobre o sono”, afirma o cientista, cujas pesquisas sobre distúrbios do sono abrangem genética, fisiologia (ritmos biológicos) e a interface entre sono, cultura e sociedade.
Dormir muito bem é exceção na população idosa. “Quem consegue, dê graças, levante a mão pro céu”, diz Pedrazzoli. Além de dormir menos horas, o sono nessa fase da vida é fragmentado, geralmente uma consequência das idas ao banheiro (média de três por noite). Há também uma tendência a nos tornarmos matutinos: dormir mais cedo e acordar mais cedo.
São duas mudanças juntas, mas que a sociedade vê de forma diferente: dormir cedo é “bonitinho”, mas acordar cedo é visto como sinal de alguma doença do sono. O que fazer, então, com essas mudanças no padrão do sono? Aceitá-las e aprender a conviver com elas. “É importante que as pessoas aprendam a lidar com o sono que têm, reconhecendo que dominam o próprio padrão e lidando com suas consequências”, diz o cientista. “Quem sente sono precisa dormir, assim como quem sente fome precisa comer”, afirma ele.
Para isso, seguem algumas dicas úteis para todas as idades:
Reduza a iluminação da casa Não fique no claro quando a natureza está no escuro. O escuro é a pista que o ambiente dá para nosso cérebro calcular que horas vamos dormir e que horas vamos acordar. “Assim que termino de jantar, apago todas as luzes da casa”, diz Pedrazzoli.
O celular na cama é um “veneno” Os smartphones emitem luz enriquecida na faixa azul, similar à do dia, que é captada pelos olhos e envia a mensagem errada ao cérebro de que ainda não é hora de dormir. Pelo grau de risco ao sono, depois vêm o computador e a televisão, nessa ordem.
Para lidar com o despertar matutino Se acordar de madrugada e não conseguir mais dormir, levante-se. Leia um livro ou assista a algo em ambiente em penumbra ou no escuro. Se não tiver que trabalhar, volte a dormir ou tire uma soneca ao longo do dia.
Não trabalhe até a hora de dormir Pare de trabalhar horas antes de ir para a cama. Isso evita que o cérebro continue processando informações do trabalho nos sonhos.
Ao envelhecer, você vai sonhar menos É durante o sono REM que o sistema nervoso processa informações emocionais e cognitivas do dia anterior, comparando-as com a memória e fazendo um cálculo de como será o próximo dia. No entanto, como vamos dormir menos, vamos sonhar menos.
Por falar em sonhos, Pedrazzoli lembra que alguns mudaram a história da humanidade. Sigmund Freud, por exemplo, desenvolveu sua teoria da interpretação dos sonhos — central na psicanálise — inspirada diretamente em um sonho próprio conhecido como o “sonho do botânico”.
Esse sonho é analisado em detalhes no livro “A Interpretação dos Sonhos” (1900): Freud sonha que está escrevendo uma monografia botânica sobre uma planta específica. No sonho, aparecem plantas, livros ilustrados, textos científicos e referências acadêmicas. À primeira vista, é um sonho quase banal, mas, ao analisá-lo, Freud mostra que ele não é sobre botânica, e sim sobre desejos pessoais e profissionais reprimidos.
Essa experiência onírica o levou a postular que os sonhos são a “estrada real para o inconsciente”, expressando desejos reprimidos de forma disfarçada. Também foi em um sonho que o russo Dmitri Ivanovich Mendeleev, em 1869, organizou os elementos por propriedades químicas, criando a primeira versão da tabela periódica. E você, já descobriu nos sonhos a solução para algum problema?
*Maria Tereza Gomes é jornalista, mestre em administração de empresas pela FEA-USP, CEO da Jabuticaba Conteúdo e mediadora do podcast “Mulheres de 50”


