Em meio à repercussão pública da polilaminina, proteína experimental desenvolvida para estimular a regeneração de lesões medulares, as principais entidades científicas do país pediram cautela no debate sobre a substância.
Em editorial conjunto publicado na 6ª feira (20.fev.2026), a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a ABC (Academia Brasileira de Ciências) afirmam que questionamentos sobre evidências científicas devem ocorrer em fóruns técnicos apropriados, com revisão por pares e transparência metodológica, evitando judicialização ou exposição midiática prematura.
“O que o caso revela é a necessidade de fortalecer os mecanismos institucionais de avaliação científica, revisão por pares, transparência metodológica e governança da pesquisa, evitando que disputas científicas migrem prematuramente para arenas midiáticas ou judiciais sem a devida mediação técnico-científica”, afirmam no texto conjunto.
A polilaminina foi desenvolvida no ambiente acadêmico da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e está em fase de testes de segurança na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Isso significa que a substância ainda não passou por todas as etapas necessárias para comprovar eficácia e segurança clínica.
Segundo o documento, a preocupação dos pesquisadores é com o fato do tema ter ganhado “forte” repercussão na imprensa e nas redes sociais. A SBPC e a ABC afirmam que relatos isolados passaram a ser interpretados como indícios de eficácia, e dezenas de pacientes recorreram à Justiça para obter a aplicação da proteína fora dos protocolos de pesquisa.
Nos últimos 15 dias, 3 pessoas que haviam recebido a substância por decisão judicial morreram. O laboratório Cristália, responsável pela produção da proteína, afirmou que as mortes não têm relação com a polilaminina.
No editorial, as entidades afirmam que, em áreas como neuroregeneração, o percurso entre pesquisa básica, validação pré-clínica, ensaios clínicos e eventual incorporação ao sistema de saúde é longo e depende de evidências acumuladas.
“A literatura internacional demonstra que terapias avançadas em saúde exigem processos rigorosos de validação científica, regulação sanitária e avaliação clínica, sendo incompatíveis com soluções imediatas ou expectativas terapêuticas antecipadas. Assim, o caso da polilaminina também suscita reflexões sobre a importância de delimitar, com clareza, as fronteiras entre pesquisa experimental, evidência científica consolidada e aplicação clínica, preservando o rigor científico e a responsabilidade institucional”, afirmam.
O caso também trouxe à tona discussões sobre patenteamento e gestão de propriedade intelectual. A pesquisadora Tatiana Sampaio, que liderou o desenvolvimento da substância, afirmou que o Brasil perdeu a patente internacional da tecnologia por falta de pagamento de taxas.
Ela declarou que houve um corte de recursos, principalmente “na época de 2015 e 2016”, e que não havia mais dinheiro para pagar as patentes internacionais. “Perdemos tudo, ficamos só com a nacional porque eu paguei do meu bolso por 1 ano”, disse.
Para a SBPC e a ABC, o debate deve ser tratado como um “teste institucional” do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação. Defendem que a soberania científica em saúde envolve não apenas produzir conhecimento, mas garantir governança ética, validação regulatória e transformação responsável da pesquisa em benefício social.
Segundo o editorial, o caso revela virtudes —como a capacidade científica instalada nas universidades públicas—, mas também fragilidades estruturais, especialmente na validação clínica, na comunicação científica e na articulação entre pesquisa, regulação e inovação produtiva.
A polilaminina é uma versão sinteticamente aprimorada da proteína laminina, extraída de placentas humanas. Ela atua como uma guia em lesões medulares, “colando” fibras nervosas rompidas. A regeneração em humanos é gradual e pode levar alguns meses.
Em um estudo com 8 pacientes com lesão medular completa (com chance de melhora de apenas 10%), 6 recuperaram algum tipo de movimento após receberem o tratamento com polilaminina. Um dos pacientes voltou a andar.
O medicamento ainda não possui registro. Por isso, pacientes têm tentado medidas judiciais para terem acesso ao tratamento como voluntários clínicos.
Em 5 de janeiro, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou um estudo clínico de fase 1 para testar a polilaminina em pacientes com lesões recentes na medula espinhal. A decisão permitiu a aplicação da substância diretamente na área lesionada de 5 pacientes para avaliar sua segurança.

