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Por que o Secos & Molhados acabou – na versão de um deles

2026/03/01 11:10
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No Japão da época dos senhores feudais, um sacerdote conta a história de um fato que havia acabado de presenciar: o julgamento de um salteador, acusado de matar um samurai e estuprar a mulher deste.

O crime é contado sob o ponto de vista de todos os envolvidos, inclusive pelo samurai morto – cujo espírito se manifesta através de um médium. Esta é a trama de Rashomon, uma produção de 1950 do cineasta Akira Kurosawa que mostra que cada um tem sua versão particular dos fatos.

A história dos Secos & Molhados é uma espécie de Rashomon à brasileira. Primeiro, vamos aos fatos: o trio formado por João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad foi um dos maiores fenômenos da música popular brasileira em todos os tempos.

A combinação de rock, folk (em especial as harmonias vocais do trio Crosby, Stills & Nash) e poesia, o visual andrógino e a voz de castrato de Ney fizeram com que o disco de estreia do trio, em 1973, passasse do milhão de cópias vendidas.

Foi um sucesso tão estupendo que a gravadora, a Continental, recolheu e derreteu discos de seu catálogo que não tinham boa saída para atender à demanda pelo disco de estreia do trio – cujas canções, aliás, até hoje se mantêm eternas. O Vira, Sangue Latino, Fala, Mulher Barriguda e Rosa de Hiroshima, entre outras, são presença constante nas rádios e releituras de astros da MPB.

Mas a primeira formação do grupo se dissolveu em 1974, pouco antes do segundo álbum chegar às lojas – na verdade, Ney anunciou seu desligamento numa entrevista ao Jornal de Tarde, e o videoclipe de Flores Astrais, exibido no Fantástico, foi precedido pelo anúncio de que os Secos & Molhados se separariam.

A partir deste momento, cada integrante do grupo enveredou por carreira solo – e deu sua versão para o término das relações artísticas e pessoais.

Ney se tornou de longe o mais bem-sucedido do trio, e abordou o imbróglio em sua cinebiografia, Homem com H, que já atraiu mais de 700.000 pessoas aos cinemas e está entre os filmes mais assistidos na Netflix.

Gerson Conrad, por seu turno, seguiu uma carreira musical errática e lançou em 2013 Meteórico Fenômeno – Memórias de um ex-Secos & Molhados, um livro no qual conta sua versão da ascensão e queda do grupo.

No final de 2025, o documentário Primavera nos Dentes: A História do Secos & Molhados, de Miguel de Almeida, reforçou a tese de Ney e Gerson, onde eles acusam João e seu pai, o poeta, jornalista e dublê de empresário João Apolinário, de assumirem os negócios do grupo e transformar os dois integrantes – Ney e Gerson, claro – em meros contratados, o que eles recusaram prontamente.

A versão de João Ricardo para os fatos surge agora em Secos & Molhados, de Otávio Juliano, disponível na plataforma de streaming gratuita SPCine. Produção de 2021, o filme havia sido exibido apenas em festivais de documentários, e agora ganha uma distribuição mais ampla.

Diretor de Endurance, documentário de 2017 dedicado à trajetória do Sepultura, e diretor-artístico das turnês Titãs Encontro, em Secos & Molhados Juliano opta por um caminho que lembra muito o do “cinema direto” dos irmãos Albert e David Maysles – que fizeram, entre outros clássicos, Gimme Shelter (1970), um relato da turnê dos Rolling Stones. Eles basicamente ligam a câmera e deixam o entrevistado à vontade para contar sua história.

João Ricardo surge numa conversa informal no Theatro Municipal de São Paulo e conta sua trajetória sem interrupções e com uma ou outra intervenção musical. Uma conversa descontraída que se inicia em sua infância em Portugal e seu primeiro contato com a música brasileira. A família de João Apolinário, pai do cantor, violonista e compositor, desembarcou no Brasil em 1964 a fim de se refugiar da ditadura de António de Oliveira Salazar (1889-1970).

O documentário pode até frustrar quem busca insultos e acusações sobre seus ex-companheiros de banda. No entanto, ele deixa claro a importância de João como mentor do conceito e da sonoridade do grupo. O nome, revela ele, nasceu depois de ver um armazém de secos e molhados, aqueles estabelecimentos que vendiam de alimentos a ferramentas e produtos de limpeza.

Violão em punho, João mostra as versões desnudas das canções que mais tarde seriam sucessos dos Secos & Molhados – entre elas O Vira, parceria dele com Luhli, que inicialmente se chamava El Vira. Luhli, aliás, foi quem lhe indicou um cara que tinha “voz de mulher” – Ney Matogrosso.

Secos & Molhados, o documentário, é movido mais pelo coração do que pelo fígado. João dá os devidos créditos ao talento de Ney e à ideia do vocalista em recrutar os músicos Willy Verdaguer e Marcelo Frias, respectivamente baixista e baterista dos Beat Boys (grupo argentino que acompanhou Caetano Veloso em Alegria, Alegria) para reforçar o cancioneiro do trio.

Frias, aliás, está na capa do disco dos Secos & Molhados, mas abandonou o barco antes do sucesso. O compositor elogia a participação de Zé Rodrix (do trio Sá, Rodrix & Guarabyra, mestres do chamado rock rural) no álbum e confessa que tinha se decepcionado com a linha de baixo criada por Verdaguer para Sangue Latino. “Claro que eu estava completamente errado,” reconhece. 

João Ricardo se esquiva na hora de comentar sobre o contrato que colocaria Ney e Gerson a serviço dele e do pai, João Apolinário. “A gente não tinha um contrato,” diz. “Ney pediu para sair pouco antes do segundo disco.” E arremata. “Eu tive o maior sucesso que alguém pode imaginar e o maior fracasso que alguém pode ter.”

Rashomon, de Kurosawa, deixa seu final em aberto. Cabe ao espectador descobrir em qual história acreditar. Até nisso a trajetória dos Secos & Molhados tem um quê do drama japonês. Cabe a você decidir quem tinha razão nessa história.

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