O agro brasileiro segue como um dos principais motores da economia e encerrou 2025 com alta acumulada de 11,7%, sustentando o Produto Interno Bruto (PIB). Ao mesmo tempo, o setor enfrenta aumento do endividamento e recorde de pedidos de recuperação judicial (RJ).
Dados da Serasa Experian mostram que o agronegócio registrou 1.990 solicitações de recuperação judicial em 2025, maior volume desde o início da série histórica da empresa, em 2021.
O número inclui produtores rurais pessoa física, produtores pessoa jurídica e empresas da cadeia do agro. O total representa crescimento de 56,4% em relação a 2024, quando foram contabilizados 1.272 pedidos. Em 2023, foram 534 solicitações.
Ao Monitor do Mercado, Guto Gioielli, analista CNPI e fundador do Portal das Commodities, afirmou que, o aumento das recuperações judiciais está ligado a uma combinação de crédito caro, margens menores e ciclos de preços e clima desfavoráveis.
Esse cenário tem reduzido a capacidade de pagamento de produtores e empresas do setor. A inadimplência rural chegou a 8,3%, indicando pressão financeira sobre parte das operações.
Outro fator citado é o modelo de expansão baseado em arrendamento de terras. Esse tipo de contrato permite ampliar a área plantada, mas cria compromissos fixos de pagamento, o que reduz a flexibilidade financeira em períodos de queda de preços ou aumento de custos.
O funcionamento do agronegócio também contribui para o aumento das recuperações judiciais, e, segundo Gioielli, os produtores recorrem à recuperação judicial como forma de honrar compromissos por meio da produção e uma eventual melhora nos preços.
“O produtor não pode parar, para não quebrar. Enquanto a produção agrícola segue um ciclo biológico, o sistema financeiro reage de forma imediata a quebras ou incertezas, revisando exposições e garantias justamente quando o custo da produção continua ocorrendo”, disse.
O pensamento é corroborado por André Matos, CEO da MA7 Negócios, “após uma quebra relevante, o banco precisa rever exposição e garantias. Só que a produção continua, o custo segue correndo e a empresa não pode simplesmente parar”, afirma.
Essa revisão leva empresas a buscar proteção jurídica por meio da RJ para reorganizar dívidas enquanto seguem operando. Nesta quarta-feira (11), outro exemplo disso foi o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen (RAIZ4) para estruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas.
Segundo cálculos da consultoria, o agronegócio concentra 12,6 empresas em recuperação judicial a cada mil ligadas à agropecuária ou a produtores rurais (1,26%), índice 6 vezes superior à média nacional e quase o dobro do registrado na indústria.
Na visão do head de agronegócio da Serasa, Marcelo Pimenta, este cenário mantém a pressão sobre a saúde financeira, especialmente dos produtores e empresários do setor com maior nível de alavancagem.
“O ambiente de crédito mais restritivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e a uma alavancagem elevada, segue impactando o fluxo de caixa das operações rurais […] Mas, a recuperação judicial deve ser o último recurso a ser utilizado”, disse.
Com bancos mais seletivos, parte do financiamento da safra passou a migrar para estruturas fora do sistema bancário tradicional.
As Cédulas de Produto Rural (CPRs) — títulos usados para antecipar recursos com base na produção futura — somaram R$ 121,9 bilhões no segundo semestre de 2025, alta de cerca de 30%.
Outros instrumentos também ganharam espaço, como fundos de crédito e operações conhecidas como DIP Finance, modalidade de financiamento oferecida a empresas em recuperação judicial para manter a operação durante o processo de reestruturação.
No mesmo período, o mercado de capitais brasileiro registrou mais de R$ 981 bilhões em emissões, ampliando as alternativas de financiamento para o setor.
Entre os estados brasileiros, Mato Grosso registrou o maior número de pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, com 332 solicitações.
Na sequência aparecem Goiás (296), Paraná (248), Mato Grosso do Sul (216) e Minas Gerais (196).
Segundo especialistas do setor, o cenário indica uma mudança na estrutura de financiamento do agronegócio, com maior presença de instrumentos privados de crédito e reorganização financeira das empresas.
De acordo com a MA7 Negócios, a tendência observada no agro em 2026 aponta para um mercado de crédito mais segmentado, no qual diferentes instrumentos passam a cumprir funções específicas ao longo do ciclo financeiro das empresas.
Para Matos, a travessia do atual ciclo depende menos de soluções pontuais e mais de coordenação financeira. “O que estamos vendo no agro é um processo de ajuste. Quem consegue organizar o passivo primeiro preserva a operação e mantém portas abertas para o mercado”, afirma.
Por outro lado, Gioielli acredita que o agro no momento precisa de um crescimento na produção e preços menores. “Fatores como a queda dos juros em 2026 podem melhorar a situação no longo prazo, mas apenas isso não será suficiente para resolver problemas estruturais do setor.”
O analista afirma ainda que a redução da inadimplência e pagamentos em dia podem trazer de volta financiamentos para produção e capital de giro para empresas.
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