Combater o idadismo exige mudar a forma como pensamos, falamos e organizamos a vida em sociedade — Foto: Karlyukav/Freepik
Outro dia decidi testar a coerência de uma multinacional conhecida por sua imagem descolada e inclusiva. No anúncio de uma vaga no LinkedIn, alguém da área de recursos humanos afirmava (o texto original estava em inglês): “Acreditamos no potencial de todos, independentemente de identidade de gênero, raça, religião, orientação sexual, origem, idade ou deficiência.” Bonito no papel.
Mas, ao preencher o formulário de candidatura, surgiu uma exigência curiosa: era preciso informar o ano de entrada na faculdade. Até aí, nada demais — não fosse o fato de que o sistema só retrocedia até 1984. Quem tivesse iniciado o curso antes disso simplesmente não conseguia concluir a inscrição. Ou seja, eu, que entrei em 1983, e outros profissionais com mais de 60 anos ficamos automaticamente de fora do processo seletivo.
Esse tipo de barreira silenciosa tem nome: idadismo. Trata-se da combinação de estereótipos (como pensamos), preconceitos (como sentimos) e discriminação (como agimos) baseados na idade. E, como outros preconceitos, ele raramente aparece sozinho — costuma caminhar ao lado do racismo, do sexismo e do capacitismo.
Recentemente escrevi nesta coluna sobre bares e academias na Ásia que passaram a barrar clientes mais velhos, numa demonstração explícita de preconceito de idade. No Brasil, atitudes assim poderiam ser questionadas legalmente. Mas fiquei pensando se, antes de qualquer litígio, não deveríamos investir mais em formação e informação para combater o problema.
Foi assim que me lembrei do Pequeno Manual Anti-Idadismo, lançado no ano passado pelo coletivo Velhices Cidadãs, com a participação de 43 especialistas em gerontologia, saúde pública, psicologia e outras áreas. Em 155 páginas, o documento reúne orientações para diferentes esferas da sociedade — do serviço público à comunicação, passando pelo mercado de trabalho.
Nas empresas, o combate ao idadismo começa justamente na porta de entrada: o recrutamento. O manual recomenda eliminar restrições relacionadas à idade no preenchimento de vagas e avaliar candidatos por aquilo que realmente importa — suas habilidades, competências, experiência e alinhamento com os valores da organização.
Também é preciso criar ambientes de trabalho estimulantes para diferentes gerações, desenvolver planos de carreira que façam sentido ao longo da vida profissional e valorizar a história e a experiência acumulada pelos trabalhadores mais velhos.
Mas o problema não está apenas nas práticas corporativas. Ele também aparece na forma como falamos sobre envelhecimento. Nossa comunicação cotidiana continua cheia de expressões que carregam estereótipos e nos diminuem.
É verdade que o corpo muda com o tempo: a visão pode piorar, a audição às vezes falha, a memória fica menos confiável e as dores surgem sem aviso. Mas isso não nos transforma em um grupo homogêneo. Somos tão diversos quanto qualquer outra faixa etária. Alguns querem continuar trabalhando; outros preferem viajar ou dedicar mais tempo à família. Há quem frequente academia e quem apenas queira sentar num bar cheio de jovens para tomar uma cerveja gelada. Todas essas escolhas são legítimas.
Talvez por isso as empresas de cosméticos tenham abandonado, em grande parte, a promessa de produtos “antienvelhecimento”. Afinal, deixar de envelhecer ainda é impossível — e, francamente, nem é o que queremos. O que buscamos é viver mais tempo com saúde e qualidade de vida.
Nesse processo de aprendizado coletivo, vale começar pelo básico: rever as palavras que usamos. O Pequeno Manual Anti-Idadismo sugere abandonar expressões comuns como “coisa de velho”, “melhor idade”, “feliz idade”, “terceira idade”, “apesar da sua idade” ou o elogio aparentemente inofensivo “Nossa, nem parece!”. Todas elas reforçam estereótipos ou tratam o envelhecimento como exceção.
Combater o idadismo exige leis, sem dúvida. Mas exige também algo mais difícil: mudar a forma como pensamos, falamos e organizamos a vida em sociedade.
*Maria Tereza Gomes é jornalista, mestre em administração de empresas pela FEA-USP, CEO da Jabuticaba Conteúdo e mediadora do podcast “Mulheres de 50”


