O México se arrisca a irritar ainda mais o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que já criticou a falta de atuação do governo de Claudia Sheinbaum contra os cartéis de drogas.
O risco decorre do fato de os mexicanos terem assumido o lugar dos venezuelanos como maiores fornecedores de petróleo para Cuba em 2025, país que Trump disse estar em sua mira após a queda de Nicolás Maduro.
Segundo dados da consultoria Kpler, obtidos pelo Financial Times (FT), o México exportou uma média de 12.284 barris de petróleo por dia (bpd) para Cuba no ano passado.
O volume representa cerca de 44% das importações de petróleo bruto da ilha e um aumento de 56% em relação aos embarques mexicanos em 2024, compensando a queda das vendas da Venezuela – que ficaram estáveis em 2024, após recuo de 63% em 2023.
Desde que reassumiu a Casa Branca, Trump pressiona o México em temas como comércio e segurança de fronteiras, afirmando que o país permite a passagem de drogas e imigrantes ilegais.
Em dezembro, veio nova crítica: o governo americano repreendeu publicamente o México por não desempenhar um "papel regional construtivo alinhado com os objetivos da política externa dos Estados Unidos".
O México mantém fortes laços com Cuba desde a revolução de Fidel Castro, em 1959. Além dos carregamentos de petróleo, emprega diversos médicos cubanos em um programa criticado pelos Estados Unidos como “esquema de exportação de trabalho coercitivo” que enriquece o regime comunista.
A presidente do México vem administrando a relação com os Estados Unidos de forma que inspirou o governo brasileiro a negociar o tarifaço.
Para isso, busca atender às principais demandas de Trump. Entre elas, a deportação de líderes de cartéis para julgamento nos EUA e a intensificação das patrulhas nas fronteiras para conter a entrada de imigrantes ilegais.
Ainda assim, criticou a ação na Venezuela. Em 5 de janeiro, Sheinbaum afirmou que “ações unilaterais e invasões não podem ser a base das relações internacionais no século XXI”.
Sobre o petróleo exportado para Cuba, já havia declarado em dezembro que as vendas “foram realizadas dentro de um quadro legal como país soberano”. “Tudo é legal”, completou.
Com o México respondendo por fatia relevante do petróleo importado por Cuba e o “empoderamento” sentido por Trump após a captura de Maduro, a expectativa é de que Sheinbaum enfrente ainda mais pressão pela relação entre México e Cuba.
A subsecretária adjunta para assuntos do hemisfério ocidental, Katherine Dueholm, atacou o México no mês passado, declarando a uma subcomissão do Congresso que o governo de Sheinbaum “frequentemente agiu de maneiras que contrariam os objetivos dos Estados Unidos”.
Com o acordo de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA) sob revisão, ela instou o México a “reconsiderar” sua posição em relação a Cuba, alertando para “sérias consequências para o comércio entre nossos países” caso Sheinbaum “continue a minar a política dos Estados Unidos enviando petróleo para a ditadura assassina em Cuba”.
A pressão dos Estados Unidos sobre o México deve ter efeitos no curto e no médio prazo na economia. Relatório do UBS alerta que o peso mexicano está cerca de 7% acima do preço justo e pode sofrer maior volatilidade com a revisão do acordo entre Estados Unidos, México e Canadá, prevista para ocorrer até julho.


