Bebida preparada dentro de ânforas de argila, em vez do envelhecimento em barris de madeira, ganha mercado em linha com preferência em alta de vinhos mais levesBebida preparada dentro de ânforas de argila, em vez do envelhecimento em barris de madeira, ganha mercado em linha com preferência em alta de vinhos mais leves

Menos carvalho, mais barro: a estratégia do Alentejo para a produção de vinhos premium

2026/02/08 18:15
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Quando a vinícola portuguesa Herdade do Rocim decidiu deixar um pouco de lado o tradicional envelhecimento da bebida em madeira para engarrafar vinho produzido em ânforas de barro em escala comercial, no início da década passada, o projeto era visto com ceticismo por colegas do Alentejo.

“Todos me chamaram de louco”, contou o CEO, Pedro Ribeiro, em entrevista à Bloomberg Línea.

A vinificação nas chamadas talhas, grandes vasos de barro, é um método antigo, usado há 2.000 anos pelos romanos na região, e era visto como um estilo rústico, pouco escalável e irrelevante para o mercado moderno.

Uma década depois, tornou-se um dos principais ativos econômicos da região. Em muitas das vinícolas do Alentejo, além das tradicionais salas de barricas onde se vê o vinho amadurecer, há uma série de jarras com centenas de litros desse velho-novo vinho sendo produzido.

A produção já representa cerca de 5% do volume de muitos dos produtores da região. Pode parecer pouco, mas a categoria impulsiona valor, visibilidade internacional e reposicionamento estratégico - e lidera um movimento de premiumização que a Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA) quer acelerar.

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“O futuro do vinho é o passado do vinho”, disse Ribeiro durante o Amphora Wine Day, festival de um dia todo voltado a esses vinhos produzidos em estilo antigo, do qual é anfitrião todos os anos em novembro.

“Apesar de ter grande densidade histórica, é a nova tendência de consumo: vinhos mais leves, frescos, minerais, sem madeira e que exacerbam o terroir”, explicou.

A mudança ocorre em um momento em que o Alentejo já ocupa posição de destaque na economia portuguesa do vinho: responde por 24% da produção de Portugal e 20% do valor gerado, movimentando 1,5 bilhão de euros por ano e com um dos maiores multiplicadores econômicos do país, segundo a CVRA.

Talhas de barro usadas na produção de vinhos naturais na vinícola Natus

Nicho em crescimento

A Herdade do Rocim é o caso mais extremo desse descompasso entre volume e visibilidade: exporta vinhos de talha para 52 países e transformou a técnica romana em um posicionamento global.

“A ânfora representa menos de 5% do volume de negócios, mas de 70% a 80% da notoriedade da marca”, afirmou Ribeiro. “E é isso o que o mercado internacional quer de nós: vinhos mais leves, frescos, minerais, sem madeira.”

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A avaliação acompanha uma tendência estrutural no consumo de vinhos, que tem implicações econômicas diretas: os vinhos de perfil mais leve, menos amadeirados e com maior senso de origem se traduzem em valores mais altos e contribuem para a estratégia de Portugal de competir por preço médio, não por escala.

Essa mudança de gosto também é percebida por outros produtores da região. Hamilton Reis, proprietário da vinícola Natus e um dos representantes dessa nova geração, corrobora que o mercado já pede esse estilo.

“A procura do cliente neste momento é para um vinho um pouco mais leve”, disse. Segundo ele, vinhos artesanais e de menor intervenção deixaram de ser nicho. “O nicho já deixou de ser nicho. Estes vinhos são para as pessoas que gostam de vinho.”

Vinho tirado direto da ânfora de barro na vinícola Honrado

Por outro lado, mesmo com a ascensão global da categoria, a produção de vinho de talha não deve ocupar grandes fatias do volume alentejano.

Não chega a ser “loucura” como o que se dizia uma década atrás, mas a limitação é operacional, não comercial.

“A talha dá um trabalho brutal e é extremamente difícil de industrializar. Faz sentido recuperar a técnica e mostrar como era feito no passado, mas não será sozinha o futuro da região”, disse Rui Veladas, enólogo-chefe da Carmim, cooperativa que é maior produtora do Alentejo (com 11 a 12 milhões de litros por ano).

Para Veladas, a categoria tem efeito colateral positivo: ajuda a atrair atenção, mídia e visitantes, favorecendo toda a cadeia, incluindo produtores que não trabalham com ânfora.

“É uma moda, mas é uma moda que tem ajudado a expor a região ao mundo”, afirmou ao expressar a sua avaliação. “O caminho técnico do Alentejo passa pelos vinhos de guarda, pela profundidade e pela consistência. A talha é importante, mas não resolve a necessidade de escala.”

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A Carmim exporta um milhão de garrafas por ano para o Brasil, seu principal mercado internacional, e observa que a tendência dos vinhos mais leves está alinhada ao que consumidores jovens e importadores brasileiros têm demandado.

Além do valor enológico, a talha oferece um ativo raro no mercado global de vinhos: a narrativa.

Origem, ancestralidade, identidade territorial e autenticidade são atributos buscados hoje por importadores, restaurantes e mercados como o brasileiro, que valorizam vinhos com forte componente cultural.

“Quem hoje prova um vinho de talha está provando algo muito próximo do que os romanos bebiam há 2.000 anos. É absolutamente único no mundo”, disse Luís Sequeira, presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), em entrevista à Bloomberg Línea.

Em um momento em que vinícolas competem não apenas pela qualidade do vinho, mas pela capacidade de criar diferenciação percebida, a talha funciona como marca registrada do Alentejo.

A ascensão da ânfora também revela um ponto de tensão na economia do Alentejo.

A região ainda depende fortemente de tintos macios de grande escala, que dominam tanto o mercado interno português quanto o brasileiro, enquanto a percepção internacional e os preços médios sobem puxados por produtos artesanais e de baixa produtividade.

Entrada da vinícola Herdade do Rocim no evento Amphora Wine Day

Essa contradição é sentida por produtores menores. Hamilton Reis afirma que o Alentejo ainda é percebido no Brasil pelas grandes marcas, um obstáculo para quem trabalha em estilos mais autorais.

“O Alentejo tem mais de 200 produtores, mas somente 10 ou 15 são os mais reconhecidos no mundo”, disse. Para ele, projetos com autenticidade, incluindo ânfora, ajudam a romper esse bloqueio.

“Identidade e autenticidade podem ser decisivos”.

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A recuperação da ânfora também fortalece o enoturismo, um dos pilares de crescimento da economia alentejana.

O Amphora Wine Day organizado pela Rocim reúne centenas de pessoas para degustações e celebrações do estilo.

“Durante gerações, a talha esteve quase perdida. Era feita de maneira artesanal, caseira, cada pessoa tinha uma ânfora em casa”, explicou Ribeiro.

“Hoje voltou a ser centro das atenções. Estamos em 52 países, nas melhores cartas de restaurantes de todo o mundo. E o que o mercado quer da Rocim são os vinhos de ânfora.”

Na vinícola Honrado, as ânforas de barro usadas para fazer o vinho ficam expostas dentro do restaurante da família, a Adega Regional País das Uvas. Na visita ao local, o método de preparo é explicado, e é possível até mesmo experimentar a bebida retirada diretamente dos grandes jarros.

A força desse movimento também ecoa no comportamento do consumidor brasileiro, segundo Reis: “o brasileiro dá valor ao próprio ato de abrir uma garrafa. É uma coisa séria, no bom sentido.”

Segundo ele, esse ritual social é um terreno fértil para vinhos que dependem mais de história e identidade do que de volume.

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